Capitulo 10
Julgo que, para fugir, aproveitou uma migração de pássaros selvagens. No dia da partida, passou a manhã a arranjar o planeta, para deixar tudo em ordem. Varreu cuidadosamente por dentro os vulcões em actividade. Tinha dois vulcões em actividade. E davam imenso jeito, de manhãzinha, para aquecer o pequeno-almoço. Também tinha um vulcão extinto. Mas, como ele dizia: "Nunca se sabe... " Portanto, também varreu o vulcão extinto. Bem limpinhos, os vulcões ardem devagar, de uma forma regular e não têm erupções. As erupções vulcânicas são como os incêndios nas chaminés. É claro que cá, na nossa terra, somos demasiado pequenos para limpar os nossos vulcões. Por isso é que eles nos causam uma data de aborrecimentos.
Com uma pontinha de melancolia, o principezinho também foi arrancar os últimos rebentos de embondeiro. Pensava nunca mais voltar. Nessa manhã, todas aquelas tarefas, tão familiares, lhe pareciam perfeitamente deliciosas. E quando estava a regar a flor pela última vez e se preparava para a cobrir com a redoma, descobriu que tinha uma grande vontade de chorar.
- Adeus - disse para a flor.
Mas ela não lhe respondeu.
- Adeus - repetiu o principezinho.
A flor tossiu. Mas não era por causa da constipação.
- Fui muito parva - acabou finalmente por dizer. - Desculpa. Vê se consegues ser feliz.
Ficou espantado por ela não se pôr com recriminações. E para ali se deixou ficar, totalmente desconcertado, de redoma no ar. Não conseguia compreender aquela mansidão, aquela calma.
- Porque é que estás tão admirado? É evidente que eu te amo - disse a flor. - Nunca o soubeste, por culpa minha. Mas isso, agora, já não tem qualquer importância. Olha que tu também foste tão parvo como eu. Agora, vê lá se consegues ser feliz... E deixa essa redoma em paz. Já não a quero.
- E o vento?
- Não estou tão constipada como isso... O fresco da noite há-de fazer-me bem. Sou uma flor!
- E os bichos?
- Duas ou três lagartas terei eu de suportar se quiser saber como são as borboletas. Parece que são tão bonitas! E, se não forem elas, quem é que se lembra de me vir cá visitar? Tu, tu hás-de estar bem longe. E dos bichos maiores, não tenho nada a recear. Afinal, para que quero eu as minhas garras?
E mais uma vez exibia ingenuamente os seus quatro espinhos. Depois, ainda disse:
- Não fiques para aqui a empatar, que me irritas! Não te resolveste ir embora? Pois então vai!...
Porque ela não queria que ele a visse chorar. Era uma flor tão orgulhosa...